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01/04/2011

Vida


            Nasci… Nasci da junção da escuridão da alma e das trevas de espírito. Por conseguinte, vivo resignado a um destino obscuro e belo. Belo pela existência do amor. Obscuro por apenas servir como espectador nesse teatro redundante. Como me sinto afastado dos restantes figurantes, sendo eu o único constituinte do público. Sou o anti-social. Mas, pensando a fundo, tenho razões para me sentir bem, afinal sou a diferença naquele mar homogéneo.
            Que felicidade cínica… Pelo menos vai servindo para enganar o espírito e iludir a alma. Mas não me distorce a realidade. Consigo ver através da magia e acordo para a realidade. A minha ingenuidade infantil dissipou-se.
            Eventualmente, cresço. Já me habituei a tudo o que contraria a minha paz interior. E continuo sozinho. E continuo bem. E continuo mal. Nada me prende ao mundo neste momento. Mas se aqui estou, devo ter algum objectivo, algum propósito. O ser superior não me criou ao acaso ou por diversão. Ter-me-á trazido a este mundo para realizar algo. Mas não encontro nada a fazer. Nada me dá satisfação e tenho de me conformar com isso.
            Finalmente chego ao fim da minha jornada. Vejo agora que me enganei. O que tomei como “superior” era, no fim de contas, um ser totalmente arbitrário. Minha vida não teve sentido nenhum nestes anos. Passei-a toda a observar minuciosamente tudo o que me foi atravessando no caminho. Por vezes tentei imitar com o objectivo de captar uma réstia de felicidade mas, surpreendentemente (ou não), não obtive qualquer sucesso.
            Estou aqui à deriva no mar sem fim, a observar o pôr-do-sol mais pressagioso que alguma vez vi. Penso que chegou a altura de pôr um término a esta miserável existência. Resta-me agora esperar pelo ceifeiro de almas. Ele que me leve para o abismo luminoso, para junto das restantes almas penadas. Talvez aí me sinta integrado, pelo menos parcialmente. Lá poderei contar a minha história e talvez ela se torne uma banalidade. E isso era o que eu mais queria. Queria ser apenas mais um de um todo e não o único de algo.
            Já sinto o metal frio da lâmina no meu pescoço a arrastar-me para o calor infernal. Sinto uma tranquilidade estranha. Chegou a hora, morri…

1 comentário:

  1. "A Vida". Palavra forte, esta. Pensava que iria ler um texto "vivo", repleto daquilo que melhor a vida proporciona, e com um rumo feliz. Inversamente, vejo que o seu rumo é totalmente oposto. Não que isso me deixe desiludida,antes pelo contrário. Apenas a palavra "vida" não me sugiria primeiramente a palavra "morte"!
    E isso lembra-me o seguinte: "vida" e "morte" caminham lado a lado, paralelamente, até que um dia se cruzam!Mas antes desse cruzamento, ambos se vão afastando ou aproximando. Há uma alternância nessa linha, tornando-a curva, por vezes. Faz parte!
    É bom que nos recordemos que nem tudo é um sol brilhante....e é o que me transmite este texto.... fases de uma vida muito próximas do tal cruzamento!
    Mas numa situação destas, o que nos puxa de volta para a linha paralela da "vida" é o algo de bom que existe e nos rodeia, e por vezes não o vemos, dada à pouca importância que eventualmente lhe damos (infelizmente). "Resta-me esperar pelo ceifeiro de almas"... Consentir não é a melhor solução!Essa desistência da "vida" é fatal!Isso afunda-nos ainda mais! Ficamos mais perto do cruzamento, do "fim final"!Não te esqueças de olhar em volta..... há sempre algo importante e magnífico que possas não ver e te salve!.... E isso talvez seja a razão de sermos capazes de manter a chama da nossa vida acesa - "o algo de bom" que é preciso procurar (e não muito longe)!

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