Pesquisar neste blogue

10/04/2011

Vida

A vida é um estado psicológico que determina a nossa existência como seres animados mas mais do que isso é um atitude que devemos tomar.

Todos existimos, é um facto contra o qual não podemos apresentar um único argumento racional que seja, mas isso não quer dizer, de forma nenhuma, que vivemos. Assim como uma pedra existe, eu tenho a certeza que ela não vive, muito menos tem um propósito a desempenhar. Existe unicamente porque complementa o mundo físico no qual habitamos.

Contudo, existem pessoas que se limitam a imitar as pedras da calçada que pisam, não passando de meros figurantes de um filme de comédia ao qual damos o carinhoso nome de sociedade, enquanto outras se esbatem ruidosamente até alcançarem o papel principal, satisfazendo-se apenas com o domínio, o poder e o dinheiro. A verdade é que nenhum dos elementos que integra os grupos apresentados se pode orgulhar de viver, no melhor sentido que a palavra pode ter. Limitam-se a uma mera e mais ou menos abonada existência.

Na realidade, poucos são aqueles que vivem e podem, um dia, orgulhar-se de terem deixado um legado de vivência produtivo, porque só os mais correctos seres humanos conseguem perceber qual o seu papel no mundo. Quem o consegue e desempenha, estará a arranjar um sentido para a sua existência e é a esse sentido que podemos chamar de vida.

14 comentários:

  1. maravilhoso!!
    como disse Oscar Wilde "viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe"

    ResponderEliminar
  2. Adorei o teu texto!
    Só tenho uma coisa a dizer: mesmo objectos sem vida (inanimados), como as pedras e a água, têm propósitos a desempenhar...
    As pedras podem servir de abrigo para muitos animais (vivos, por sinal), tal como a água que serve não só de lar, mas também de recurso para um incontável número de seres vivos...
    Talvez por isso poderemos dizer que, embora os "objectos" do mundo físico não estejam vivos no verdadeiro sentido da palavra, são o que dá vida aos restantes seres existentes e viventes. Talvez por essa razão podemos considerar que os objectos "inanimados" tem vida afinal.
    Pensem assim: poderá advir vida de algo morto?...
    Espero pela resposta amigo Darkmoon :D
    (O texto está óptimo, apenas quis deixar um apontamento fora do contexto político-social em que o inseriste)

    ResponderEliminar
  3. Compreendo perfeitamente o teu ponto de vista, caro colega Blackbird, e assumo que por lapso meu a mensagem não foi correctamente passada.

    O que eu queria dizer é que os objectos inanimados não podem consciente ou impulsivamente desempenhar uma tarefa. Eles assumem essas tarefas porque foram colocados no espaço físico com o único intuito de o completar e, assim, todas as condicionantes e características do mesmo são adoptadas por esses objectos.

    ResponderEliminar
  4. Portanto, o que queres dizer é que um objecto que não consegue desempenhar uma tarefa conscientemente, adapta-se ao meio onde é colocado...
    Como será isso possível sem que haja um impulso ou um reflexo (mesmo que inconsciente) a um estímulo externo?
    Será que assim provamos que estes "objectos" estão vivos? Eu penso realmente que sim, afinal, se assim não fosse, as plantas não poderiam ser consideradas seres vivos mas sim simples decoração que, apenas por acaso, é essencial a toda a vida.

    ResponderEliminar
  5. Claro que as plantas são seres vivos. Não coloco isso em causa. Contudo, elas não assumem uma vivência, ou seja, em vida, não conseguem construir um conjunto de acções que as possa distinguir das restantes.

    São vivos apenas porque realizam processos metabólicos, mas no fundo são todas iguais, uma vez que não há forma de se destacarem. O mesmo acontece com os animais, excluindo o Homem, uma vez que este é o único capaz de adquirir uma vivência, mas por vezes assume-se como simples animal, igual a tantos outros, sem qualquer objectivo devidamente definido ou um ideal que possa seguir, limitando-se a ser arrastado pela corrente e pelos impulsos que são característicos dos animais e das plantas.

    ResponderEliminar
  6. O facto dos processos metabólicos constituírem uma forma de distinguir vida de inactividade não é muito coerente. Como diz David Hume, a causalidade é impossível de provar. E os processos metabólicos que mencionaste não são mais que causalidades e, por conseguinte, carecem de provas. Portanto, da mesma maneira que não consegues provar que as plantas estão vivas com esse argumento, também falhas na tentativa de deitar por terra a ideia de que os objectos inanimados estão, de facto, vivos.

    Quanto à "vivência" de que falas, na minha opinião, nenhum ser vivo consegue atingi-la. Para a atingir, na minha perspectiva, temos de nos sentir completos. Ora, para nos sentirmos completos, temos invariavelmente de sentir racionalmente. Neste ponto retiramos já todos os seres vivos que não o homem.
    E agora chega-nos um novo e irresolúvel problema: a ganância humana. Nenhum ser humano vive completamente satisfeito com o que tem (podendo no entanto conformar-se). Todos nós ambicionamos cada vez mais e mais e por essa razão nunca encontramos a forma certa de sentir a "vivência" completa.

    ResponderEliminar
  7. Julgo que cometeste um erro de análise. Os processos metabólicos são muito vastos e muitos deles são conhecidos, como tal podem ser devidamente provados e a sua existência não pode ser colocada em causa. Para além disto, os processos metabólicos não são uma causa, mas sim um facto que poderá ser causado por outros processos, logo não poderemos seguir o pensamento de Hume para este caso. O que não poderemos provar é o porquê destes processos se realizarem.

    Tendo, então, em conta o que referi, a realização ou não de processos metabólicos é um dado perfeitamente aceitável e, de resto, utilizado pela comunidade científica, para distinguir seres vivos de seres inanimados.

    No que compete à vivência, discordo do facto de não a podermos ter completamente. Ela é fruto de um caminho traçado segundo um determinado objectivo racional e embora a ganância possa ter um papel importante, o caminho está traçado e é sobre ele que nos movimentamos. A verdade é que quem olha apenas numa perspectiva gananciosa limita-se a existir porque deixou influenciar o seu objectivo unicamente por um impulso, mas se pegarmos nesse impulso e arranjarmos um objectivo racional teremos as condições necessárias para construir uma vivência.

    ResponderEliminar
  8. Muito bem, talvez tenha cometido um erro de análise. Tentarei remediar isso pondo o meu argumento ao contrário. Imaginando que os processos metabólicos de síntese de proteínas, por exemplo, seriam muito lentos e que em vez de originarem proteínas originavam rochas. Por esta ordem de pensamento poderemos considerar os processos geológicos como um processo metabólico infinitamente lento. Vendo isto desta perspectiva, teremos de aceitar que as rochas são seres vivos que têm uma definição de "tempo útil" absurdamente maior. Da mesma forma que os cientistas provaram que certas estrelas do mar são predadoras activas (perseguem as presas apesar de muito lentamente).

    Vamos agora à vivência. Darei um exemplo prático para ser mais fácil de compreender. Imagina que um indivíduo traça um objectivo de vida. Tudo o que faz é para o alcançar. Até que chega finalmente o dia em que o alcança. Aí repara que não há mais nada a fazer de útil na sua vida. Esta é a perspectiva sem a ganância a interferir.

    Tenho de admitir, mudei de opinião. A vivência plena é possível. E o segredo para a alcançar está encerrado nas profundezas da ganância humana. Sem ela a vida perderia o sentido após cada obstáculo sobreposto. E portanto, o sentido da vivência humana é a ganância, ou como gostamos de dizer em palavras politicamente correctas, a ambição.

    ResponderEliminar
  9. Tendo em conta a perspectiva apresentada, o que terá de ser hipoteticamente considerado um ser vivo é a Natureza, uma vez que é ela que cria as rochas, assim como os seres vivos produzem as proteínas. Teremos de pensar assim porque não são os processos metabólicos que criam os seres vivos, mas são os seres vivos que realizam os respectivos processos metabólicos originando substâncias (proteínas, por exemplo) que não são seres vivos porque elas próprias não realizarão algum processo metabólico que seja.

    Contudo, a hipotética hipótese de a Natureza ser um ser vivo é afastada porque o processo de síntese das rochas é em tudo diferente dos processos metabólicos que ocorrem nas células dos seres vivos.

    No que compete à vivência, julgo que chegamos a uma conclusão óbvia e com a qual me identifico.

    ResponderEliminar
  10. Continuando. O ser humano é um ser vivo, isso é inquestionável. O ser humano é constituído por células, que por si sós também seres vivos mais pequenos. Se considerarmos a Mãe Natureza como um ser vivo, então teremos de considerar os seus constituintes também seres vivos.
    Existem pessoas que acreditam veemente que Deus existe e que afirmam sem sombra de dúvida que ele vive (tanto como ser ou "dentro de nós"). Ora, algumas destas pessoas encaram a Mãe Natureza(tudo o que vemos) como Deus e por isso viva. Como consequência disso, o mundo físico, parte integrante da Natureza, tem de ser também vivo, tanto rochas, animais, plantas, água e por aí adiante.
    Ou seja, tudo o que existe vive de uma forma ou de outra.

    ResponderEliminar
  11. O argumento é válido, contudo temos de considerar o facto de Deus não ser, propriamente, um ser, uma vez que ele não é constituído por matéria. Para além disso, não realiza qualquer tipo de actividade metabólica, logo não é um ser vivente.

    Mesmo que consideremos Deus algo equivalente à Natureza, ele passa a ser constituído por matéria que é, no fundo, o meio que nos rodeia. Contudo o pressuposto que definiste para considerar tudo o que existe como um ser vivente, falha no facto das células, por si só, não serem seres vivos porque isoladamente não conseguem realizar os processos metabólicos que realizam quando constituem um organismo. Para além disto, as proteínas, por exemplo, também constituem os seres vivos, entrando na constituição das células mas, como já podemos observar, não são seres vivos. Por isso mesmo, não podemos considerar tudo o que nos rodeia como seres viventes.

    ResponderEliminar
  12. Receava que chegasses ao ponto mais fraco do meu argumento, mas era bastante óbvio para passar ao lado. Acabo por ter de concordar que o mundo físico apenas existe.

    Mas agora surgiu-me uma dúvida: como é que um ser alegadamente todos poderoso, criador de tudo o que vemos, não pode ser um ser vivo?
    Como pode algo inanimado compreender algo tão complexo sem viver ele mesmo?

    ResponderEliminar
  13. Fico feliz por termos chegado a uma conclusão relativamente aos seres vivos.

    Quanto à dúvida, parece-me muito difícil arranjar um argumento que prove completamente a existência de tal ser inanimado, ou não, que nos domina. Nunca haverá consenso no que compete a matérias de fé porque elas não passam disso mesmo: fé. Para se acreditar em algo tão grandioso, julgo que nada racional pode ser levantado porque somos completamente imperfeitos no que compete ao raciocínio e à razão e muitas são as vezes em que falhamos. Pura e simplesmente não poderemos compreender algo tão perfeito ao pormenor como compreendemos a astronomia, a anatomia ou a biologia porque nada do que nos rodeia é tão grandiosos e complexo como o que tentamos imaginar, já que não só nós como os restantes seres vivos são imperfeitos. Desta forma, não há nada material que possamos analisar para chegar a um consenso do que é ou deixa de ser Deus.

    ResponderEliminar
  14. Concordo perfeitamente. Nunca podemos imaginar algo que vai além da nossa própria imaginação. No entanto, não partilho da tua fé e penso que, por prudência, devemos rejeitar a existência de algo do qual não temos provas de existir. Mas como, disseste, é uma questão de fé. E eu não a tendo não posso julgar quem tem a felicidade de a possuir. Assim penso que fechamos um capítulo de uma longa discussão.
    Até à próxima conversa.

    ResponderEliminar